sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

AmNésia

Nésia é a empregada da minha avó. Aos 60 e poucos anos e há mais de 40 fazendo parte da família ela teve tempo o suficiente de pôr à vista suas qualidades e defeitos e o mais engraçado é que em sua maior qualidade está inserido seu maior defeito. A Nésia tem uma memória surreal. Se lembra de cada detalhe e de cada parte da vida de cada um. Antes fossem memórias usadas com sabedoria, mas não; é uma fofoqueira de primeira. Imperfeições à parte, estou aqui pelos bons predicados. Como é enredador possuir extraordinária memória. Estive raciocinando: será que com meus 18 anos de vida tenho mesma capacidade de armazenamento dessa exemplar funcionária? Ultimamente tenho percebido que não. Cada indagação direcionada a mim é um infortúnio. Sou incapaz de recordar-me de amigos que pernoitaram em casa ou mesmo do meu almoço da semana passada. Esqueço nomes, aniversários e acontecimentos que todos lembram e insistem em me importunar até que recorde. Até simpatizo com esse esforço alheio, todavia não me traz ajuda além dessa única lembrança. Comecei a criar um programa de exercícios para a conservação da memória. Palavras cruzadas, sudoku, dicionários e fotos. Meio cansativo. A Nésia nunca careceu desses artifícios. Ela fofoca.
Cada um, cada um.
Já deu pra perceber que de Nésia não tenho nada, né?! Estou mais pra amNésia.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O Amor e o Tédio

Tarde de quarta-feira e me vejo dentro do ônibus com três amigas maravilhosas. Como sou uma “pessoa que gosta de expor suas idéias o tempo todo” (pseudônimo para tagarela), comecei a conversar. Novas paisagens surgiam pelo trajeto, junto a elas novos assuntos e a cada novo assunto mais um comentário sobre seus respectivos namorados, na maioria, críticas. Como a única solteira do grupo e meio desfocada, as dúvidas começaram a surgir como em uma panela de pipocas. Eram muitas, faziam barulho e vinham todas ao mesmo tempo. Antes que pudesse segurar minha língua mais um pouco, já tinha soltado a tal pergunta: “você o ama?”. A resposta era óbvia, todas responderam que sim. A segunda pergunta foi bem parecida, mas não menos importante, pois seu real significado era outro. Perguntei: “vocês estão apaixonadas?”.
Houve um silêncio momentâneo entre conversas perdidas e o barulho do motor. Não obtive nenhuma resposta concreta, todas fugiam um pouco do contexto. Ouvi um “ah! Começo de namoro é sempre maravilhoso” e um “depende do dia”. Como assim?
Por que a paixão que vem no mesmo pacote do amor acaba antes? Será que foi um erro do entregador? A única e pequena conclusão que tive foi: rotina é uma bosta! Não conseguia digerir isso.
Estaria eu feliz nessa situação? Eu deixaria uma relação chegar nesse ponto? Duas perguntas e nenhuma resposta.
Realmente, nada como viver pra aprender. Correr atrás dessas respostas antes do tempo não estaria em sintonia com a vida. A minha vez de escolher entre a rotina e a quebra dela chegará. Espero.

Bourgogne Bouton (o botão vermelho)

O alarme toca. Abro os olhos e deparo-me com o estrado da beliche. Em dias comuns apenas levantaria, mas hoje não, o estrado não me olhava normalmente. Paralisada comecei a perceber suas semelhanças com uma cela. Me senti prisioneira daquele lugar; e como todo bom prisioneiro mantive-me lá. Por horas pensei sobre a tal prisão, que por mim foi apelidada de "confinamento de férias". Quanto mais insistia no assunto mais abismada ficava.
Três horas já haviam se passado então achei melhor levantar. Fui às minhas tarefas diárias e no momento em que pisei na cozinha os problemas (realmente) começaram. Era como se estivesse revivendo o ontem, estava agindo como ontem; e como uma grande pancada uma percepçao surgiu: a prisão não era a beliche, e sim a rotina como um todo. Do lado de fora da janela estava um dia lindo, lindo mesmo, e insistia em manter-me imóvel dentro do pijama e o que era pior, dentro do meu "confinamento de férias".
Comecei a andar pela casa com uma grande esperança de encontrar um botão vermelho piscando. Apesar de saber que seria impossível, continuei minha busca. Gostaria apenas de pressioná-lo e abandonar esse jogo de mau gosto.
Ouvi um barulho e interrompi a busca para atender à porta. Abri e deparei-me com a Realidade, que disse-me apenas: Não é um jogo, é a vida .
Fechei a porta com uma grande decisão em mente. Amanhã vou passear com meu cachorro.